terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sob a neblina da dor


Certa manhã, ao tirar meu carro da garagem para ir ao trabalho, deparei-me com uma forte neblina que prometia dificultar meu percurso. O dia ainda não raiara e a escuridão parecia ainda mais condensada pela existência da névoa.

Não sei porque, mas não gosto de nevoeiros. Talvez eu até saiba, sim. Eles embaçam e confundem a nossa visão, escondem a beleza do céu e, além do mais, costumam protagonizar os melhores filmes de horror. Porém, tem algo sobre o nevoeiro, que é a situação que mais me incomoda. Diante de sua presença, somos obrigados a desacelerar, andarmos mais devagar. Por vezes, precisamos não apenas tirar o pé do acelerador, mas frearmos bruscamente a um palmo de distância do carro que está a nossa frente, para não colidirmos. Porém, somente alguém que está sempre com o tempo cronometrado sabe o quanto é ruim recuar, quando o que se precisaria é encurtar o tempo de viagem.

Esse era um desses dias. Eu certamente me atrasaria se precisasse diminuir. Tentaria pelos meus métodos chegar a tempo. O jeito seria utilizar o farol alto e o pisca-alerta para delicadamente pedir que os meus colegas de trânsito me dessem passagem. Ah! Claro, uma sirene piscante e barulhenta também seria muito bem-vinda se eu pudesse.

Eu estava indo muito bem, estava bastante satisfeita com minha “performance” de piloto. Mas toda pressa tem seu preço. E geralmente pagamos mais caro quando não agimos com paciência e sabedoria.

Estão dispostos, ao longo da rodovia que eu percorro, vários letreiros luminosos gigantes e visíveis em condições normais, com indicações diversas sobre trânsito, temperatura, acidentes, congestionamentos e dicas de segurança.

Talvez, se eu estivesse mais devagar e atenta, poderia ter observado o aviso de um grande congestionamento que me esperava pela via de acesso que eu entraria. Talvez, se eu fosse mais prudente, poderia ter tomado outro caminho senão o que me levaria a um desesperador engarrafamento ou, pelo menos, fazer uma conversão em tempo de fugir dele. E muitos de nós sabemos que os engarrafamentos de uma cidade como São Paulo significam horas sem sairmos do lugar.

Bem, ali estava eu. Completamente parada. Se a minha preocupação era não chegar atrasada, agora era exatamente isso o que aconteceria.

Enquanto aguardava a quilométrica fila de carros andar, fazia uma comparação desse meu aprendizado com outra lição que o Senhor nos dá diariamente.

Na ocasião, eu estava vivendo dias maus. Dias de choro, angústia, tristeza. E parei para pensar em quantos são os momentos em que nos deparamos com um intenso nevoeiro em nossa vida. O nevoeiro de ser abandonado por quem se ama (esse era o meu momento). O nevoeiro de termos que deixar quem amamos. O nevoeiro do divórcio que não se quer. O nevoeiro da doença incurável. O nevoeiro do filho que foi embora. O nevoeiro da morte. O nevoeiro das dívidas que não cessam. Nevoeiros de dor, derrota, ansiedade, autocomiseração, tristeza, mágoa e tantos outros que também embaçam os nossos olhos e nos impedem de enxergar, ainda que eles estejam abertos.

São momentos de profunda solidão em que nos encontramos desesperados, em que olhamos em redor, à frente e atrás, mas nada enxergamos. É exatamente nessa hora que devemos nos atentar, ligar nosso pisca-alerta espiritual. É preciso desacelerarmos da nossa correria de vida e até, se necessário, colocarmos o pé no freio para que não nos machuquemos. Frearmos bruscamente a nossa própria vontade e convertermos o nosso caminho para a vontade de Deus pode ser uma boa opção para que não nos arrebentemos.

Quantas vezes acabamos passando desapercebidos e ignorando os gigantescos letreiros luminosos que o Senhor coloca em nossos caminhos, com Seus avisos sobre o perigo que enfrentaremos adiante se não pararmos agora. Porém, cegados pela névoa e perdidos em nossa ansiedade, não nos atentamos que estamos prestes a entrar em um congestionamento espiritual, atrasando nossa chegada ao ponto final, a bênção que tanto almejamos.

O Senhor é capaz de nos mostrar exatamente qual o percurso mais adequado para chegarmos ao nosso destino. Nenhum caminho, por mais nebuloso que seja, é por Ele desconhecido. Nosso Deus, que sonda os nossos corações, sabe perfeitamente do que precisamos e só Ele tem, nas próprias mãos, delimitadas todas as nossas rotas, incluindo cada atalho, cada buraco na pista, cada congestionamento, cada acidente que nos espera adiante.

Ele espreita não apenas as distâncias a serem percorridas, as condições da estrada, e o clima, mas se preocupa, inclusive, em nos guiar pelo caminho mais bonito, mostrando-nos as mais belas paisagens, os mais verdes campos, os pastos mais verdejantes. O Senhor é o piloto perfeito para nos conduzir ao último vôo, e a todos os outros. Estou certa que, quando desembarcarmos no aeroporto celestial do nosso Deus, todas as turbulências terão valido a pena de serem enfrentadas.

E nem precisaremos enfrentar filas de check in nem check out.

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