quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pedaço de dia


Era um dia comum, tranquilo, dentro do considerado normal. Ela acordou às 5h30 como de costume. Ousou cinco minutos a mais de sono. Pulou da cama com um tal de "soneca" gritando-lhe aos ouvidos. Trajava um jeans desabotoado e uma camisa amassada. A prova do crime estava ali. Dormiu com a roupa que vestiu no dia anterior, sem o banho da noite, sem escovar os dentes, sem apagar a luz. Aliás, ela nem percebeu que dormiu. Foi assim, de um segundo para outro, deitou em sua cama apenas para alongar os ossos. Puf! Apagou como brasa acesa jogada em água. E ali estava, num novo dia que ainda nem clareava, sonâmbula, embriagada de sono, sentada na beirada da cama, tateando o chão com os pés em busca do perdido par de chinelos. Com descomunal esforço, levantou-se, apalpando as paredes e apertando os olhos na tentativa de enxergar algo em tão denso breu.


Tentou não fazer barulho, mas a crise de espirros de todas as manhãs já se manifestava desesperadamente. Ela até tentou a técnica de invisibilidade que aprendeu num curso de ilusionismo, mas não foi bem sucedida. Foi inevitável. A criança acordou. E chorou. Era momento de parar tudo para consolar aqueles lindos olhos de jaboticaba que se inflamavam enquanto as lágrimas corriam. Um abraço terno tentava aconchegá-la e enviá-la novamente ao mundo dos sonhos. Mas os olhos estalaram. Voltar ao sono era algo completamente indesejado por aquele anjinho, naquele momento. Pena! Como ela desejava inverter os papéis com aquela criança e dormir mais um pouco. Pois bem! A não-dormência do bebê exigia reforço. Ela chamou a mãe para socorrê-la, enquanto o relógio insistia em não oferecer trégua.


Resolvido às 6h30 o já segundo problema do dia (o primeiro problema foi acordar), a próxima etapa seria o banho. Os bocejos alternavam-se com os espirros. A chegada ao banheiro foi interrompida pelo pequeno-cão-comprido que arranhava suas pernas em busca de afago. Enfim, banho! Um momento de maravilhoso e solitário bem-estar. Talvez o único do dia, justificando a necessidade de aproveitá-lo ao máximo. O percurso de volta para o quarto obteve nova interrupção. Pelo mesmo cachorro. Dessa vez, o bicho arranhava a porta para sair, estava no horário do seu xixi matinal.


O ponteiro do relógio, que só aprendeu a tabuada do cinco, saltava de cinco em cinco minutos. Já era hora de sair e ela ainda não havia se arrumado. Novamente no quarto, a criança já dormia. Ela não queria correr o risco de acordá-la outra vez, por isso manteve a luz apagada. Trocar-se ao breu era tarefa fácil naquela circunstância. Vestiu a primeira calça que encontrou pendurada no cabideiro, por coincidência a mesma que usou no dia anterior e que havia acabado de tirar. Um "minha mãe mandou" foi suficiente para escolher uma blusa amarrotada no armário abarrotado, ao mesmo tempo que todas as outras caíam aos seus pés. E ali ficaram. Agora era a vez das meias. Quase gritou "bingo" quando conseguiu sortear um par delas, embora fosse um pé diferente de outro. Mas tudo bem, uma vez que calçaria seu par de botas e ninguém observaria o detalhe.


Tudo pronto! Uma passadela de escova nos cabelos mal enxutos, um par de brinco nas mãos que seria colocado durante a viagem, um casaco jogado nos ombros, celulares na bolsa, chave do carro na mão e ainda deu tempo de pegar uma maçã nas profundezas de uma geladeira cheia. Foi até o carro, jogou tudo dentro, abriu o portão, saiu com o carro, parou, desceu, fechou o portão. Esqueceu de deixar o dinheiro no armário para a mãe comprar frutas. Volta tudo e deixa o dinheiro. Aproveita para pegar os óculos de sol que haviam ficado em cima da mesa do computador, lembra das pastas do trabalho e do caderno da faculdade que se perderam no quarto e os pega também. Por falar em faculdade, alguém teria visto a carteirinha dela? Sumiu. Mas isso pode ficar pra depois. Na passagem pelo corredor junta os sapatos da bebê nos quais tropeçou e já se vale do momento para jogar uns brinquedos perdidos que estavam fora de suas caixas. Verifica se o cãozinho está em sua cama coberto pelo seu edredom e mais um pequeno afago grátis. Mais uma rápida visita à geladeira para pegar uma garrafa d'água.

Ufa! Prontinho! Agora ela já podia sair pra começar o seu dia. Voi là!

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog amiga!!! beijão!!

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  2. Ufa!!! É o preço de um filho(a)...rsrsrs...que maratona heim amiga!!! e que recompensa!!! Legal...gostei...beijos...Suze

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